Magia Negra - A Herança Africana na bruxaria e porquê não faz sentido ser bruxa brasileira e racista
Oioi espero que esteja bem! Sim, o título é gigante, mas é isto aí. Fiz esse post no dia da Consciência Negra, fiz uma pesquisa bem legal (e demorada) e interessante. Queria ter escrito mais, mas como já disse, é postagem do insta e você sabe que por lá tem que ser post curto... ENFIM.
Let's que bora.
Heranças Africanas para a Bruxaria: Conexões com a Europa, América do Norte e América do Sul
A influência das tradições africanas na bruxaria é ampla e reflete séculos de diáspora, resistência cultural e intercâmbios espirituais. Tanto na Europa quanto nas Américas, elementos de espiritualidades africanas se integraram a práticas magickas locais, resultando num sistema mesclado muito rico e complexo de práticas.
Embora a bruxaria europeia tenha raízes próprias em práticas pagãs pré-cristãs, as trocas culturais durante a era colonial trouxeram elementos de espiritualidade africana para os continentes. Durante o comércio de pessoas em situação de escravidão levados à Europa, frequentemente mantinham práticas espirituais que se misturaram a rituais europeus, resultando no sincretismo religioso que conhecemos.
Heranças Africanas na Bruxaria Europeia
Influencia do Norte da África
A proximidade geográfica entre o Norte da África e o sul da Europa permitiu trocas espirituais desde a Antiguidade. Elementos da magia egípcia, berbere e outras tradições do Norte da África Influenciaram grimórios e práticas europeias. O uso de amuletos, invocações e fórmulas mágicas egípcias, por exemplo, aparece em grimórios medievais como o Picatrix*
Sincretismo e Demonização
Muitos elementos associados à bruxaria europeia foram demonizados durante a Inquisição, mas podem ter raízes africanas, como o uso de ervas, bonecos e danças que alteram a consciência. A figura da "bruxa" dançando ao redor de uma fogueira remete a práticas rituais de diversas culturas africanas que usavam a dança como forma de conexão espiritual. Mas claro, sem tirar o fato de que nas práticas pagās europeias muitos camponeses dançavam para agradar e agradecer os deuses muito antes das invasões europeias ao continente Africano.
**um antigo tratado de magia e astrologia de origem árabe, Seu título original Ghayat al-Hakim significa "O Objetivo dos Sábios"
Heranças Africanas na Bruxaria das Américas
Aqui nas Américas, as influências africanas é mais evidente devido à diáspora africana durante o período colonial. As populações africanas escravizadas preservaram as suas práticas religiosas, sincretizando com o cristianismo óbvio, que moldaram os sistemas mágicos e religiosos das Américas
América do Norte
- Hoodoo: Com origem no sul dos EUA, é um sistema magicko de raiz africana que incorpora elementos cristãos, africanos e indígenas. Muitos de seus elementos, como ο uso de raízes, ervas e orações específicas, vêm de tradições de África Ocidental
- Bonecos e Fetiches: Práticas como o uso de bonecos para canalizar intenções elou realizar maldições possui paralelos diretos com os nkisi da tradição Kongo.
Exemplo de fetiches:
Heranças Africanas na Bruxaria das Américas
- Ação Comunitária e Curas: Os conjures e rootworkers eram (e são) respeitados por sua habilidade e benção de curar, proteger e ajudar a comunidade, similar ao papel de curandeiros africanos tradicionais.
América do Sul e Caribe
- Candomblé e Umbanda (Brasil): Essas religiões afro-brasileira possuem vínculos com o que podemos chamar de bruxaria. O uso de ervas, oferendas, evocações e invocações de entidades reflete a continuidade de tradições africanas, principalmente das nações Iorubá, Kongo e Ewe-Fon.
- Santeira (Cuba): Assim como o Candomblé combina práticas africanas (principalmente ioruba) com o catolicismo (assim como a umbanda), adaptando-se à cultura local
- Vodu (Haiti): Tem origem na África Ocidental, nos reinos de Daomé, Gana, Nigéria, Benin e Togo. É um dos sistemas mais emblemáticos das heranças africanas. Seus rituais de possessão uso de "fetiches'' influenciaram não apenas sistemas locais, como narrativas em outros cantos do mundo sobre bruxaria
- Kimbanda ou Quimbanda: é uma prática religiosa afro-brasileiro com raízes na mitologia Bantu em que se cultua apenas Exu e Pombogira.
Sincretismos Religiosos:
Muitos sistemas religiosos nas Américas, como pudemos ver, adotam elementos cristãos como santos, rezas e salmos, usados como uma estratégia para camuflar práticas religiosas originárias de África que eram proibidas durante a era colonial.
Principais Elementos Africanos Incorporados na Bruxaria e Feitiçaria
1.Uso de Ervas e Plantas: Uso das folhas sagradas para rituais de diversos fins, seguindo o conhecimento de plantas quentes, mornas e frias (utilizado muitas vezes na bruxaria natural), o respeito ao Orí pois nem todas as ervas são apropriada para uso direto na cabeça, segundo essas tradições de religião afro-brasileiras.
2. Transe e Incorporações: Rituais que levam ao êxtase, onde o praticante entra em transe e incorpora entidades sagradas comuns tanto em África quanto nas tradições derivadas, como a Vodu, Candomblé, Umbanda e Quimbanda.
Quero dar uma certa atenção para este tópico, mas sem muita profundidade. Ouvindo um podcast que gosto muito, um dos participantes chegou à conclusão de que a incorporação é um invocação bem feita. A invocação é o ato de trazer uma energia para dentro de si. Fica aí a reflexão
Além disso, o transe das religiões de matriz africanas possuem quase o mesmo objetivo que a gnose, utilizada na Magia do Caos e em outras práticas magickas.
Principais Elementos Africanos Incorporados na Bruxaria e Feitiçaria
Algumas das semelhanças são:
- alteração da consciência, foco intencional e uso de técnicas corporais (danças, respirações, estímulo sonoro);
Algumas diferenças:
- A origem, o contexto (a gnose é uma prática ocultista e tem origem na psicologia moderna, enquanto 0 transe africano vem antes da incorporação de entidades e irradiação do Orixá), e o objetivo final (acessar o subconsciente na gnose e conectar com os orixás e entidades nas religiões de matriz africana)
Você pode estar pensando "Ok, depois disso tudo ainda não entendi a relação entre ser bruxa brasileira e não ser racista..."
Ou você se faz, ou não quer entender, mas vamos lá... continua que ta acabando, mas juro que vale a pena.
Por que não faz sentido ser bruxa brasileira e ser racista?
O ato de realizar simpatias para ir bem na prova e de benzer a criança contra mau-olhado são práticas religiosas que tem raízes africanas. Ou então de tomar um chá de boido para acalmar a mente de uma pessoa em crise. Nossa espiritualidade, seja ela cristä ou não, é marcada por elementos de matriz africana (além do cristianismo). Essa mistura é resultado do contato com as culturas africanas trazidas para cá cada uma dessas tradições deixou um legado importante para espiritualidade brasileira.
Exemplo de práticas cotidianas que têm origem em religiões de matriz africana:
Os conhecimentos sobre ervas, banhos, chás praticados especificamente no Brasil, os conhecimentos sobre as formas de preparar os alimentos para as oferendas no altar, mesmo que siga outras vertentes do ocultismo, colocar Espada de São Jorge na porta de casa, ter pimenteira na cozinha, colocar espelhos na porta de entrada também tem origem nas religiões de matriz africana.
Por que não faz sentido ser bruxa brasileira e ser racista?
Honrar, respeitar e ouvir os praticantes de bruxaria mais velhos/com mais experiência também é uma prática muito comum em religiões de matriz africana. Nessas religiões, os mais experientes são vistos como guardiões dos conhecimentos ancestrais e transmissores do conhecimento. (enquanto transcrevo este post, faço parte de um grupo de capoeira, e é o mesmo esquema. devemos ouvir calados e respeitar, afinal, a capoeira também surgiu durante o período de escravidão).
A experiência de vida e de religião dos mais velhos mais experientes é essencial para a preservação e continuidade das tradições, já que muito conhecimento das religiões de matriz africana são passadas oralmente, assim como nas práticas de bruxaria com as sacerdotisas, os mestres e guardiões dos mistérios. Não é apenas uma questão de hierarquia, mas de garantir que o conhecimento será transmitido de forma ética, respeitosa, consciente e confiável.
Ser bruxa brasileira e ser racista é um paradoxo, negar e desrespeitar a importância das práticas de religiões de matriz africana é negar as próprias raízes e a sua brasilidade. O conhecimento ancestral trazido pelos africanos, tanto nas práticas religiosas quanto nas espirituais, foi fundamental para a construção do nosso povo e das nossas tradições. Essas práticas resistiram ao colonialismo, à repressão e à tentativa de apagamento histórico. A magia que praticamos no Brasil é um verdadeiro caldeirão de tradições que nos faz, de certa forma, querendo ou não, nos conectando com os ancestrais.
Se hoje você pode livremente, sem ser presa ou reprimida, como na época da ditadura (afaste de mim esse cálice), ir ao primeiro terreiro que encontrar quando algo dá errado, é por conta da resistência dos praticantes - que até hoje que ainda sofrem repressões desde sempre mesmo com leis que proibiam suas práticas religiosas e, claro, do movimento modernista e da valorização da cultura popular.
É isto por hoje.
Até breve.
Maya
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